Capítulo II - A realeza de Jesus
O
Espiritismo veio completar, nesse ponto, como em muitos outros, o
ensinamento do Cristo, quando os homens se mostraram maduros para
compreender a verdade. Com o Espiritismo, a vida futura não é mais simples
artigo de fé, ou simples hipótese. É uma realidade material, provada pelos
fatos. Porque são as testemunhas oculares que a vêm descrever em todas as
suas fases e peripécias, de tal maneira, que não somente a dúvida já não é
mais possível, como a inteligência mais vulgar pode fazer uma idéia dos
seus mais variados aspectos, da mesma forma que imaginaria um país do qual
se lê uma descrição detalhada. Ora, esta descrição da vida futura é de tal
maneira circunstanciada, são tão racionais as condições da existência
feliz ou infeliz dos que nela se encontram, que acabamos por concordar que
não podia ser de outra maneira, e que ela bem representa a verdadeira
justiça de Deus.
Ainda
assim, eis que muitos não aceitam e dizem que isso tudo é coisa do
demônio. Mas gente, quem é o demônio? Um espírito, certo? Se é espírito é
por não estar encarnado. Ou seja, se só enxergam o bem ou o mal é
tendencionismo de quem assim enxerga. A realidade e os fatos, aí estão.
Querer aceitar ou não é liberdade de cada um. E mais, perceber que cada um
tem em conformidade com seus atos, faz com que percebamos que não existem
protegidos e preteridos. Se deixarmos de teimosia infundada, veremos a
justiça divina, não a justiça punitiva, mas a justiça que é justa em sua
concepção, dando a cada um segundo suas obras.
A
Realeza de Jesus 4 – O reino de Jesus não é deste mundo. Isso todos
compreendem. Mas sobre a Terra ele não terá também uma realeza? O título
de rei nem sempre exige o exercício do poder temporal. Ele é dado, por
consenso unânime, aos que, por seu gênio, se colocam em primeiro lugar em
alguma atividade, dominando o seu século e influindo sobre o progresso da
humanidade. É nesse sentido que se diz: o rei ou o príncipe dos filósofos,
dos artistas, dos poetas, dos escritores, etc.
O mundo
em que conhecemos o Mestre Jesus, era um mundo regido pelos interesses
pessoais, pela barbárie, pelas leis que oprimem e castigam
indistintamente, por homens mesquinhos e vis, por criaturas perversas
dentro da própria religiosidade que professam. Algo mudou de lá para cá?
Teremos evoluído? Teremos aprendido algo? Sim, embora continuemos em
muitos aspectos guiados por estes mesmos sentimentos!! Jesus veio buscar
aqueles que assim se dispuseram a segui-lo e fazer jus a esta morada.
Jesus veio nos dar a oportunidade de conhecer algo diferente daquilo que
até então conhecíamos e isso ocorre diariamente. É o milagre do amor, a
germinar em corações sedentos de paz e de luz, amor e misericórdia.
E quem é
o carro chefe deste milagre de amor? Quem é o condutor mor? O Mestre
Jesus, nosso Rei, Guia, irmão, Conselheiro, Caminho e tantas outras
definições que queiramos dar-lhe. Ele é a ponte entre Deus, suas leis e a
sua criação, nós. Através de Jesus, passaremos pelas Leis do pai,
apreendendo-as e assimilando-as, praticando-as e alardeando-as, até
chegarmos ao Pai. Jesus é a grande ponte, mas outras pontes se fazem em
nosso viver e temos visto isto através de muitos e muitos irmãos, sejam
espíritas ou não. Verdadeiras pontes entre o abismo de nossas deficiências
e o amor que nos fortalece. Verdadeiras pontes que se dispõe a nos doar,
seja através de psicografias, trabalhos voluntários, arrecadações
diversas, disseminação dos ensinamentos Cristãos, e tantas outras maneiras
de ser ponte entre aquilo que somos/fazemos/ansiamos e aquilo a que
verdadeiramente chegaremos.
Não
existem apenas pontes construídas solidamente, mas existem outras tantas e
de acordo com a necessidade e disponibilidade para que a tarefa se
concretize. A cada pé o seu sapato, a cada percurso a transpor a sua
ponte. Pequenas, grandes, sólidas, momentâneas e de todos os tipos –
pontes que estão sob a liderança de uma só criatura – Jesus. Prosseguindo:
Essa
realeza, que nasce do mérito pessoal, consagrada pela posterioridade, não
tem muitas vezes maior preponderância que a dos reis coroados? Ela é
imperecível, enquanto a outra depende das circunstâncias; ela é sempre
abençoada pelas gerações futuras, enquanto a outra é, às vezes,
amaldiçoada. A realeza terrena acaba com a vida, mas a realeza moral
continua a imperar, sobretudo, depois da morte. Sob esse aspecto, Jesus
não é um rei mais poderoso que muitos potentados? Foi com razão, portanto,
que ele disse a Pilatos: Eu sou rei, mas o meu reino não é deste mundo.
O grande
erro daqueles que aguardavam o cumprimento das profecias, foi justamente,
o de aguardar um rei com a visão terrena. Embora elucidados por João
Batista e tantas outras pequenas pontes espalhadas pelo mundo de então, a
maioria esmagadora aguardava um rei repleto de riquezas, que ostentasse
toda a pompa e poderio com que se acreditava ser necessário vencer
guerras, tomar impérios e libertar povos. E qual não foi a surpresa ao se
depararem com um carpinteiro? E surpresa maior foi a daqueles que notaram
que tinha quem acreditasse, confiasse e se sentisse melhor seguindo a este
carpinteiro. O cúmulo da afronta à materialidade reinante.
Por que
os doutores do templo uniram-se a Pilatos e a tantos outros reis? Porque
havia influência da matéria e dos ganhos pessoais! Puxa, impossível,
inclusive, não fazer analogia com nossa família ou familiares. Aquela tia
chata que ninguém pensaria em convidar para uma festa é a primeira a ser
enumerada, porque com muita certeza ela trará fartura de alimentos e
presentes; aquele pai que ninguém tolera ou concorda com suas atitudes é o
mesmo que tem todos aos seus pés, porque lhes fornece casa, comida e tudo
do que dispõe. Quem quer se revoltar contra isso tudo e assumir seus
próprios pensamentos e atitudes?
Lembram-se de Francisco de Assis? Tinha tudo isso e muito mais de seu rico
pai, mas preferiu permanecer nu em meio à multidão do que ter de vestir um
par de meias que fosse e abdicar de sua crença e de seus ideais. Com
certeza não eram materialistas.
Vemos aos
montes, famílias cujas pessoas caminham na honestidade, no amor e na boa
intenção, mas que são preteridos por aqueles que possuem recursos e possa
‘comprar’ companhia e tudo o mais de que necessitam. Nós não queremos ver
nossos filhos vendidos e nem queremos ver aqueles que nos são caros
deixarem-se sucumbir a estas situações, mas todos precisam do aprendizado.
Avós que compram netos com sorvete, estranhos que compram crianças com
passeios e coca-cola, adultos que compram adultos em troca daquilo que
lhes é caro ou necessário. Em épocas de eleições, nem preciso me alongar
na busca de exemplos, pois vemos aos montes. Vale lembrar que comprador e
comprados passam por situações de aprendizado, envolvendo a dor, com muita
certeza.
Assim o
era na época de Jesus e assim o será enquanto o ser humano ainda for
guiado pelos desejos e necessidades imediatistas, custem o que custar.
Muito melhorou e se modificou, mas não nos esqueçamos que não somos os
mesmos habitantes daquela época. Quem, uma vez mais lhes pergunto, não nos
garante que existem habitantes de outros mundos, em evolução similar ás
nossas e que não estiveram aqui à época de Jesus? Já aprendemos que Deus
cria incessantemente, que existe troca entre as diversas moradas e que
nada está parado no ciclo evolutivo.
O que
fica de todo este ensinamento é que Jesus é de uma realeza imperecível e
que se mantém e propaga pelo mundo todo através dos séculos. E quem foi o
primeiro rei da Normandia? Quem foi o décimo rei da França? Quem são eles
em relação aos nossos dias atuais? Estarão tão presentes como o Mestre
Jesus? Não. Apenas a realeza moral de Jesus alcançou nossos tempos. Nos
próximos trechos a serem abordados, veremos o testemunho de além túmulo de
uma Rainha e estas conjecturas se confirmarão.
O
Ponto de vista.
5 – A idéia clara e precisa que se faça da vida futura dá uma fé
inabalável no porvir, e essa fé tem conseqüências enormes sobre a
moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista pelo
qual eles encaram a vida terrena. Para aquele que se coloca, pelo
pensamento, na vida espiritual, que é infinita, a vida corporal não é mais
do que rápida passagem, uma breve permanência num país ingrato. As
vicissitudes e as tribulações da vida são apenas incidentes que ele
enfrenta com paciência, porque sabe que são de curta duração e devem ser
seguidos de uma situação mais feliz. A morte nada tem de pavoroso, não é
mais a porta do nada, mas a da libertação, que abre para o exilado a
morada da felicidade e da paz. Sabendo que se encontra numa condição
temporária e não definitiva, ele encara as dificuldades da vida com mais
indiferença, do que resulta uma calma de espírito que lhe abranda as
amarguras.
Como diz
o Divaldo P. Franco em uma de suas palestras, não é porque somos espíritas
e cremos na vida futura que temos pressa em morrer. Muita calma lá. Temos
nossos apegos do lado de cá. Temos nossos caminhos a percorrer, nossas
provas a cumprir, nossa responsabilidade a levar avante. Porém, sabemos
que nada do que temos seguirá conosco, a não ser coisas imperceptíveis á
matéria e inalienáveis perante a eternidade. A nossa fé tem de ser maior
do que é. ‘Ah, sou temente a Deus e cumpro com todos os meus deveres’. Mas
ninguém falou isso. Ninguém disse que temos de ter medo de Deus e fazer
aquilo que é devido ou obrigatório.
Nossa
função, enquanto seres buscam a perfeição, é a de olharmos para o perfeito
com os olhos perenes e não olhos que haverão de caducar. Nossa função é a
de estarmos com fé perante a vida e aos desígnios e isso significa sermos
obedientes. Se nos é dito, confia e segue, não querem que sejamos robôs ou
manipuláveis, mas sim que compreendamos que tudo passa e se faz necessário
que sigamos. É necessário que alimentemos o bem e o amor. É necessário que
embora o mundo nos mostre dor e tristeza, que creiamos naquilo que o pai
nos mostra: amor e gozos eternos.
Não os
amores a que estamos habituados, não os gozos fáceis que confundimos com
banalidades, mas o amor que edifica e constrói, o gozo de quem vê o bem e
o amor construindo e edificando. E, por mais que nos esforcemos em nossa
caminhada individual, teremos sempre um irmão de jornada a amparar e a
socorrer, assim como também o fomos e somos. Nossa felicidade se fará
plena quando os que amamos também estiverem felizes e, se estamos
aprendendo a amar a humanidade, imaginem o trabalho que temos à frente. E
já vou lembrando: de nada vai adiantar sair trabalhando pelo distante e
que não está ligado a nós de maneira direta, se deixarmos os que são
prementes em nossa lista de lado, ou seja, não adianta fazer caridade fora
da família e tratar aos pais, irmãos e filhos como peças de um jogo de
xadrez, onde cada qual pode proporcionar um resultado e possui uma função
específica de ser. Emmanuel nos convida a escolhermos o abrigo seguro:
(...)Diante de quaisquer provações da vida; quando tudo te pareça
incompreensão, barrando-te os passos; se as circunstâncias do mundo te
arrebatarem a presença de criaturas queridas; no momento em que todos os
recursos se te afigurem extintos; perante os sofrimentos que te alcancem
os seres amados; ou à frente de inibições orgânicas que julgues
irreversíveis, ilhando-te nos problemas da enfermidade; não desanimes.
Pensa em Deus, refugia-te em Deus, espera por Deus e confia em Deus,
porquanto, ainda mesmo quando te suponhas a sós, em meio de tribulações
incontáveis, Deus está conosco e com Deus venceremos.(...)
Na hora
da dor e do desespero, parece que nossas forças se encontram minadas e não
conseguimos fazer essa ligação com Deus, crendo e confiando que Ele está
conosco, pelo contrário, criamos um diálogo mental que não nos dá nenhuma
margem de piedade (eu não presto, não valho nada e assim por diante) ou
que nos coloca em um pedestal inatingível (por que você fez isso comigo,
Deus? Que te fiz para merecer tamanha injustiça?), quando devíamos
disciplinar nossos impulsos e nossa mente, pondo-nos a ler e reler as
orientações que nos foram ofertadas, a repisá-las e repassá-las
ausentando-nos da onda de auto-flagelo emocional que nos acomete.
Certo é
que em determinadas horas temos tão profundo pesar e lastimar, que sequer
sentimos coragem de conversar com Deus ou de fazer qualquer coisa. Sejamos
fortes e resistamos a estas ondas... Elas nos são motivo de aprendizado e
não de afogamento.
Exposto em
18-08-2010 por Fiorell@!