Capítulo I - As três revelações - parte VIII
FÉNELON Poitiers, 1861 nos diz:
10 – Um dia, Deus em sua inesgotável caridade, permitiu ao homem ver a
verdade através das trevas. Esse dia foi o do advento de Cristo. Depois do
vivo clarão, as trevas se fecharam de novo. O mundo, após alternativas de
verdade e obscuridade, novamente se perdia. Então, semelhantes aos
profetas do Antigo Testamento, os Espíritos começaram a falar e a vos
advertir. O mundo foi abalado nas suas bases: o trovão ribombará; sedes
firmes!
Só um pequeno parênteses neste trecho. Vocês já tomaram conhecimento de
quantas vezes Deus foi banido da história por atos de criaturas que se
julgavam acima deste Poder Superior e que, por conta da autoridade e até
mesmo abrangência que possuíam, conduziram povos e nações aos extremos da
falta de fé até a decretação da morte de Deus? A França tão questionada
pelas pessoas por ser o berço da Doutrina Espírita e ali encontrar menos
adeptos que em muitos outros lugares, passou por revoluções incontáveis,
ora chamando o povo a ser pagão, ora convocando-o a adorações
particularistas.
Uma vez mais vemos ali a inesgotável caridade de Deus, ao permitir que
Allan Kardec ali reencarnasse com a difícil tarefa não apenas de fixar
Deus, mas também ensinamentos de difícil aceitação por um povo que estava
habituado a ver Deus entrar e sair de suas vidas conforme ia entrando e
saindo Nobres e Potentados. Assim o foi com Jesus e o berço do
cristianismo, como vocês bem devem se recordar. Prosseguindo:
O Espiritismo é de ordem divina, pois repousa sobre as próprias leis
da natureza. E crede que tudo o que é de ordem divina tem um objetivo
elevado e útil. Vosso mundo se perdia. A ciência, desenvolvida com o
sacrifício dos interesses morais, vos conduzia unicamente ao bem estar
material, revertendo-se em proveito do espírito das trevas. Vós o sabeis,
cristão; o coração e o amor devem marchar unidos à ciência. O Reino do
Cristo, ai de nós! após dezoito séculos, e apesar do sangue de tantos
mártires, ainda não chegou. Cristãos, voltai para o Mestre que vos quer
salvar. Tudo é fácil para aquele que crê e que ama: o amor o enche de gozo
inefável. Sim, meus filhos, o mundo está abalado. Os bons Espíritos vo-lo
dizem sempre. Curvai-vos sob o sopro precursor da tempestade, para não
serdes derrubados. Quero dizer: preparai-vos e não vos assemelheis às
virgens loucas, que foram apanhadas desprevenidas à chegada do esposo.
Quando olhamos estupefatos detalhes da criação, seja o desenho e
colorido de uma flor ou de uma borboleta, até a engrenagem perfeita que
move um único órgão de nosso corpo, não temos como não reconhecer ali a
ordem divina, o poder de criação de Deus a se estabelecer. Quantas
barbáries foram cometidas não apenas em nome do orgulho e da vaidade, mas
também da Ciência? Assim o era em nome da Religião também! E no entanto,
como generosamente nos recorda Fénelon, a ciência não pode marchar
isoladamente, do contrário, os sacrifícios desnecessários continuarão a
ser feitos em nome de um bem-estar pretensamente necessário.
Não se constrói vidas com a morte de outras. Não fazemos nossa
felicidade ás custas da tristeza alheia. Passaram-se os anos e até mesmo
os séculos e o anúncio persiste: o mundo está abalado e interesses
distantes da luz galgam degraus de forma acelerada por conta de nossa
invigilância e de nossa ganância. Ainda assim estamos sendo chamados e
alertados, para que não sejamos pegos de calças curtas.
A revolução que se prepara é mais moral do que material. Os grandes
Espíritos, mensageiros divinos, insuflam a fé, para que todos vós,
obreiros esclarecidos e ardentes, façais ouvir vossa humilde voz. Porque
vós sois o grão de areia, mas sem os grãos de areia não haveria montanhas.
Assim, portanto, que estas palavras: “Nós somos pequenos”, não tenha
sentido para vós. A cada um a sua missão, a cada um o seu trabalho. A
formiga não constrói o seu formigueiro, e animaizinhos insignificantes não
formam continentes? A nova cruzada começou: apóstolos da paz universal, e
não da guerra, modernos São Bernardos, olhai para frente e marchai! A lei
dos mundos é a lei do progresso.
Gente, se em 1861, às portas de toda a revolução tecnológica um Espírito
de escol como Fénelon vem e nos diz que a revolução é mais moral do que
material, que devemos pensar diante dos avanços desenfreados da tecnologia
que vimos nestes últimos anos? Se com todo esse crescimento envolvendo
tantas e tantas inovações para nosso conforto e bem-estar material, quem
dirá o tanto que não se deve processar no âmbito que ninguém pode tocar,
ou seja, nosso próprio eu?
E, ainda diante da amplitude a ser realizada e da imensidão que envolve
cada existência e cada criatura, se nos sentirmos ou encontrarmos
pensamentos destoantes de que nada somos ou valemos perante estas
situações, lembremo-nos do aviso deste irmão: “ grãos de areia compõe a
montanha’, assim como Madre Tereza nos disse: “pequenas gotas compõe o
oceano”. Nossa união se faz necessária perante á grande marcha do amor a
que fomos chamados.
Passados negros e conspurcados dando passagem a novos tempos de
renovação, refazimento, união e fraternidade. Não será fácil e ninguém
disse que seria. Além de todas as nossas próprias dificuldades pessoais,
estaremos inseridos também nas dificuldades pessoais do nosso próximo, mas
se não agirmos unidos, não construiremos e nem edificaremos. A próxima
mensagem, de Erasto, nosso convoca a esta grande batalha, também:
ERASTO, discípulo de São Paulo - Paris, 1863 nos diz:
11 – Santo Agostinho é um dos maiores divulgadores do Espiritismo. Ele se
manifesta por quase toda parte, e a razão disso a encontramos na vida
desse grande filósofo cristão. Pertence a essa vigorosa falange dos Pais
da Igreja, a que a Cristandade deve as suas mais sólidas bases. Como
muitos, ele foi arrancado ao paganismo, ou melhor, diremos, a mais
profunda impiedade, pelo clarão da verdade. Quanto, em meio de seus
desregramentos, ele sentiu na própria alma a estranha vibração que o
chamava para si mesmo e lhe fez compreender que a felicidade não estava
nos prazeres enervantes e fugidos; quando, enfim, na sua Estrada de
Damasco, ele também ouviu a santa voz que lhe clamava: “Saulo, Saulo, por
que me persegues?”; exclamou: “Meu Deus! Meu Deus perdoa-me, eu creio, sou
cristão!” E desde então se tornou um dos mais firmes pilares do Evangelho.
Todos nós temos nossa passagem pela estrada de Damasco. Todos nós já
fomos chamados a reconhecer a verdade e segui-la em proveito de nós mesmos
e da humanidade. A velocidade com que a percorremos é variável, mas todos
estamos a caminho. A forma como buscamos agir fervorosamente varia, mas
todos nós estamos a postos para o bom combate. Quem de nós vira a face a
um ente ou amigo que nos solicita palavras de consolo e de refazimento?
Podemos até ofertar palavras nem tão ajustadas, mas todos já possuímos a
centelha da solidariedade e da fraternidade que vibra dentro de nós, nos
impelindo a sermos mais do que apenas espectadores frente às dores
alheias.
Cabe a cada um de nós dosar a velocidade e a intensidade com que deseja
se entregar a esta caminhada. Todos os caminhos são ásperos e difíceis,
muitas portas não se abrirão, muitas ainda se fecharão, mas serão os
caminhos do amor e da caridade que farão com que se abram verdadeiras
clareiras onde só nos parecia haver pedras e montanhas. A chamada é para
que sigamos em frente, porque a aspereza da jornada foi feita por nós
mesmos em tempos idos. Finalizando as palavras de Erasto sobre Santo
Agostinho, temos:
Podemos ler, nas notáveis confissões desse eminente Espírito, as
palavras características e proféticas, ao mesmo tempo, que ele pronunciou
ao ter perdido Santa Mônica. “Estou certo de que minha mãe virá visitar-me
e dar-me o seu conselho, revelando-me o que nos espera na vida futura”.
Que lição nestas palavras, e que brilhante previsão da futura doutrina! É
por isso que hoje, vendo chegada a hora de divulgação da verdade, que ele
já havia pressentido, faz-se o seu ardente propagador, e se multiplica,
por assim dizer, para atender a todos os que o chamam.
Por vezes ouço uma pessoa extremamente católica dizer-me: ‘tua mãe te
protege e está com você’, mas ela não consegue aceitar a idéia da
reencarnação ou do contato com os espíritos. Oras, que é minha mãe, então?
Assim apreendemos nas palavras de Santo Agostinho ao referir-se à Sra. sua
mãe. Ela viria dar-lhe conselhos e ele mesmo já começava a divisar a
realidade da vida espiritual, distante dos erros que cometera em torno do
materialismo e da própria religião. Grande propagador da Doutrina
Espírita, posto que é a doutrina do Cristo, o Consolador prometido pelo
Mestre Jesus e tempo haverá que todas as idéias e ideais se unificarão,
não restando distinções ou divisões.
NOTA – Santo Agostinho vem, por acaso, modificar aquilo que ensinou?
Não, seguramente, mas como tantos outros, ele vê com os olhos do espírito
o que não podia ver como homem. Sua alma liberta percebe claridade nova, e
compreende o que antes não compreendia. Novas idéias lhe revelaram o
verdadeiro sentido de certas palavras. Quando na terra, julgava as coisas
segundo os conhecimentos que possuía, mas, quando uma nova luz se fez para
ele, pode julgá-las com maior clareza.
Vejam que interessante, Santo Agostinho não está ligado apenas a uma
determinada igreja ou religião, antes, é bem visto por várias delas. Na
Igreja Católica, e na Igreja Anglicana, é um santo, e um importante doutor
da Igreja, e o patrono da ordem religiosa agostinha; seu memorial é
celebrado no dia 28 de agosto. Muitos protestantes, especialmente
calvinistas, o consideram como um dos pais teólogos da Reforma Protestante
ensinando a salvação e a graça divina. Na Igreja Ortodoxa Oriental ele é
louvado, e seu dia festivo é celebrado em 15 de junho, apesar de uma
minoria ser da opinião que ele é um herege, principalmente por causa de
suas mensagens sobre o que se tornou conhecido como a cláusula filioque.
Entre os ortodoxos é chamado de "Agostinho Abençoado", ou "Santo Agostinho
o Abençoado" Eis o que ele se propõe sem o véu que lhe cobria os olhos
materiais, á transcendência religiosa.
É assim que ele deve revisar sua crença referente aos espíritos
íncubos e súcubos, bem como o anátema que havia lançado contra a teoria
dos antípodas. Agora, que o Cristianismo lhe aparece em toda a sua pureza,
ele pode, sobre certos pontos, pensar de maneira diversa de quando vivia,
sem deixar de ser o apóstolo cristão. Pode, sem renegar a sua fé, fazer-se
o propagador do Espiritismo, porque nele vê o cumprimento das predições.
Ao proclamá-lo, hoje, nada mais faz do que conduzir-nos a uma
interpretação mais sã e mais lógica dos textos. Assim também acontece com
outros Espíritos, que se encontram numa posição semelhante.
Se em vida Agostinho já pode divisar o erro contido na crença que
professava, o maniqueísmo,o que dirá não pode este espírito aberto ao
conhecimento e á verdade divisar quando afastado da carne. Só recordando,
o maniqueísmo é um trem onde acredita-se que as criaturas são regidas por
Deus, o bem, ou pelo Diabo, o mal, e há o conceito de que existem duas
almas, a boa e a má. Diante deste conceito, a pessoa não é livre nem
responsável pelo mal que faz. Este lhe é imposto. Oras, aperceber-se deste
erro e propagar a verdade nada mais do que aquilo que tanto enfatizamos:
não nos basta resistir ao mal, é preciso combatê-lo. Semana que vem
adentraremos ao Capítulo 2 – MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO – A vida futura.
Exposto em
04-08-2010 por Fiorell@!