Espírito de Verdade, quem seria Ele?
“É o
Espírito da Verdade, que o mundo... não o vê nem o conhece; mas vós o
conhecereis... Voltarei a vós”. (Jesus, em João 14,17-18).
I –
Introdução
A resposta a
essa pergunta é um assunto ainda polêmico no meio Espírita. Para uns o Espírito
de Verdade é Jesus; outros dizem que não, e completando há ainda os que não se
preocupam nem um pouco com a sua identificação, é a turma do tanto faz. Embora
esse assunto não seja objeto de grande destaque na mídia espírita, chama-nos a
atenção ser ele objeto de tantas discussões, pois, a essa altura do campeonato -
praticamente um século e meio de Doutrina -, nós, os Espíritas, já deveríamos
ter plena certeza de quem, realmente, assinara nas obras da Codificação, usando
este codinome.
Assim sendo, iremos trazer nossa contribuição, na condição de ser apenas um
estudioso, para, quem sabe, se não resolver de uma vez por todas a questão, pelo
menos indicar um caminho que nos leve a deduzir claramente quem seria o Espírito
de Verdade.
Esclarecemos, logo de início, que não temos a pretensão de refutar nenhum artigo
escrito sobre o assunto. E reafirmamos que queremos apenas contribuir para
elucidar essa questão.
II – Seria uma comunidade de Espíritos?
Tendo em vista que muitos o consideram como sendo uma plêiade de Espíritos, é
necessário, já de início, definirmos este ponto. Encontramos, na Revista
Espírita, algumas comunicações nas quais nos fundamentaremos para responder a
este quesito.
Perguntou-se ao Espírito Jobard:
Vedes os Espíritos que estão aqui convosco? - R. Eu vejo sobretudo Lázaro e
Erasto; depois, mais distante, o Espírito de Verdade, planando no espaço;
depois, uma multidão de Espíritos amigos que vos cercam, apressados e
benevolentes. (Revista Espírita 1862, p. 75).
Ao Espírito Sanson, se fez a seguinte pergunta:
Não vedes outros Espíritos? - R. Perdão; o Espírito de Verdade, Santo Agostinho,
Lamennais, Sonnet, São Paulo, Luís e outros amigos que evocais, estão sempre em
vossas sessões. (Revista Espírita 1862, p. 175).
Numa comunicação de Lacordaire, lemos:
Era preciso, aliás, completar o que não havia podido dizer então, porque não
teria sido compreendido. Foi porque uma multidão de Espíritos de todas as
ordens, sob a direção do Espírito de Verdade, veio em todas as partes do mundo e
em todos os povos, revelar as leis do mundo espiritual, das quais Jesus havia
adiado o ensinamento, e lançar, pelo Espiritismo, os fundamentos da nova ordem
social. Quando todas as bases lhe forem postas, então virá o Messias que deverá
coroar o edifício e presidir à reorganização com a ajuda dos elementos que terão
sido preparados. (Revista Espírita 1868, p. 47).
Pela informação desses três Espíritos, podemos concluir que não se trata de uma
coletividade, mas que o Espírito de Verdade é, sem receio, uma individualidade.
Mas sigamos em frente. Devemos, para dissipar as possíveis dúvidas, trazer o
testemunho do próprio Kardec, que, analisando uma comunicação de um determinado
espírito, assim a explicou:
O Espírito que ditou a comunicação acima é, pois, muito absoluto no que concerne
a qualificação de santo, e não está na verdade dizendo que os Espíritos
Superiores se dizem simplesmente Espíritos de verdade, qualificação que não
seria senão um orgulho mascarado sob um outro nome, e que poderia induzir em
erro se tomado ao pé da letra, porque ninguém pode se gabar de possuir a verdade
absoluta, não mais do que a santidade absoluta. A qualificação de Espírito de
Verdade não pertence senão a um e pode ser considerado como nome próprio; ela é
especificada no Evangelho. De resto, esse Espírito se comunica raramente, e
somente em circunstâncias especiais; deve-se manter em guarda contra aqueles que
se apoderam indevidamente desse título: são fáceis de se reconhecer, pela
prolixidade e pela vulgaridade de sua linguagem. (Revista Espírita 1866, p.
222).
Não restando, portanto, a nós mais dúvida quanto a não ser uma coletividade, uma
vez que as informações nos apontam para identificá-lo como sendo mesmo uma
individualidade. Inclusive, da recomendação de que “deve-se manter em guarda
contra aqueles que se apoderam indevidamente desse título”, podemos perceber que
se trata de algum Espírito de elevada hierarquia que não se manifestava de forma
rotineira, e dele já se tinha uma idéia do estilo de linguagem longe da
prolixidade e da vulgaridade.
Levando-se em conta que Kardec disse que a qualificação do Espírito de Verdade
encontra-se especificada no Evangelho, seguiremos sua orientação, e, um pouco
mais à frente, iremos ver o que lá poderemos encontrar sobre isso.
III – Seria o próprio Jesus o Consolador?
Vejamos esta passagem de João:
“Se me amais, guardareis os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos
dará outro Consolador, a fim de que esteja eternamente convosco, o Espírito de
Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o
conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos,
voltarei para vós outros. Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai
enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as cousas e vos fará lembrar de
tudo o que vos tenho dito”. (João 14,15-18 e 26).
Por ter dito que enviaria outro Consolador, devemos concluir, com Kardec, que o
Consolador não é Jesus. Entretanto, a passagem bíblica dá a entender que ele é o
Espírito de Verdade, fato que vem causando uma certa confusão para se
identificar quem realmente ele seja, se apenas a tomarmos como referência.
Kardec é quem vai nos esclarecer isso, pois, para ele, são duas coisas
distintas.
Em A Gênese, cap. XVII, item 39, encontramos o seguinte:
Qual deverá ser esse Enviado? Dizendo: “Pedirei a meu Pai e ele vos enviará
outro Consolador”, Jesus claramente indica que esse Consolador não seria ele,
pois, do contrário, dissera: “Voltarei a completar o que vos tenho ensinado”.
Não só tal não disse, como acrescentou: A fim de que fique eternamente convosco
e ele estará em vós. Esta proposição não poderia referir-se a uma
individualidade encarnada, visto que não poderia ficar eternamente conosco, nem,
ainda menos, estar em nós; compreendemo-la, porém, muito bem com referência a
uma doutrina, a qual, com efeito, quando a tenhamos assimilado, poderá estar
eternamente em nós. O Consolador é, pois, segundo o pensamento de Jesus, a
personificação de uma doutrina soberanamente consoladora, cujo inspirador há de
ser o Espírito de Verdade. (KARDEC, A Gênese, FEB, 2007, p. 441).
Assim, Kardec, reafirmando o que ele já havia dito alhures, relaciona o
Consolador a uma doutrina soberanamente consoladora, qual seja, o Espiritismo,
cujo inspirador foi o Espírito de Verdade. Portanto, fica claro, para nós, que
Kardec separa uma coisa da outra, o que nos leva a concluir que o Espírito de
Verdade não é o Consolador, o qual foi identificado por ele mesmo como sendo o
Espiritismo. O que fica ainda mais nítido com estas duas outras falas dele:
Assim, o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador prometido:
conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e
por que está na Terra; atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e
consola pela fé e pela esperança. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. VI,
item 4, p. 135).
... reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a
respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade quem preside
ao grande movimento da regeneração, a promessa do seu advento se encontra
realizada, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador. (A Gênese, item 42,
IDE, p. 31).
Caracteriza, portanto, o Espiritismo como sendo o Consolador prometido, ao qual
lhe atribui a realização da promessa de Jesus do seu envio, o que mostra
claramente a separação que fazia entre Espírito de Verdade e o Consolador.
Nessa última fala, ao dizer no final que “é ele o verdadeiro Consolador”, o “é
ele” a que Kardec aqui está se referindo é o Espiritismo e não o Espírito de
Verdade; ressaltamos, para que não se venha confundi-los no entendimento desse
texto. Para confirmar esse nosso entendimento, vejamos esta outra fala de
Kardec, contida em O Evangelho Segundo o Espiritismo (p. 134): “O Espiritismo
vem, na época predita, cumprir a promessa do Cristo: preside ao seu advento o
Espírito de Verdade”. Comparando essa fala com a que acima é dita “a promessa do
seu advento se encontra realizada, porque, pelo fato, é ele o verdadeiro
Consolador”, percebemos que nessa última frase o “seu advento” está se referindo
ao Espiritismo, o que pode ser conferido com o que foi colocado na primeira
frase. Assim, s.m.j., o “é ele” se relaciona à expressão “seu advento”, o que,
por conseguinte, nos remete ao Espiritismo.
Podemos observar que, nessa passagem bíblica mencionada, Jesus diz “voltarei
para vós”, profecia que se realizou quando da implantação do Espiritismo, isso
ficará claro quando conseguirmos identificar quem usou o nome de Espírito de
Verdade.
IV – Quando ele aparece pela primeira vez?
No dia 24 de março de 1856, Kardec estava, em seu escritório, escrevendo um
texto sobre os Espíritos e suas manifestações, quando, por várias vezes, ouviu
repetidas batidas, cuja causa não logrou sucesso em encontrar. No dia seguinte,
ou seja, 25 de março, era dia de sessão na casa do Sr. Baudin. Lá, Kardec
interroga ao Espírito Z (Zéfiro) sobre a origem das batidas. Acontecimento que
consta do livro Obras Póstumas (p. 304-306), da seguinte forma:
Pergunta - Ouvistes, sem dúvida, o relato que acabo de fazer; poderíeis dizer-me
qual a causa daquelas pancadas que se fizeram ouvir com tanta persistência?
Resposta - Era teu Espírito Familiar.
P. - Com que fim foi ele bater daquele modo?
R. - Queria comunicar-se contigo.
P. - Poderíeis dizer-me quem é ele?
R. - Podes perguntar-lhe a ele mesmo, pois que está aqui.
P. - Meu Espírito familiar, quem quer que tu sejas, agradeço-te o me teres vindo
visitar. Consentirás em dizer-me quem és?
R. - Para ti, chamar-me-ei A Verdade e todos os meses, aqui, durante um quarto
de hora, estarei à tua disposição.
Antes da última pergunta, Kardec colocou a seguinte nota:
Nessa época, ainda se não fazia distinção nenhuma entre as diversas categorias
de Espíritos simpáticos. Dava-se-lhes a todos a denominação de Espíritos
familiares.
Indagando sobre o porquê das batidas, teve como resposta que havia um erro no
que estava, naquela ocasião, escrevendo, fato que depois se confirmou.
Voltando às perguntas, continua Kardec:
P. - O nome Verdade, que adotaste, constitui uma alusão à verdade que eu
procuro?
R. - Talvez; pelo menos, é um guia que te protegerá e ajudará.
P. - Poderei evocar-te em minha casa?
R. - Sim, para te assistir pelo pensamento; mas, para respostas escritas em tua
casa, só daqui a muito tempo poderás obtê-las.
P. - Terás animado na Terra alguma personagem conhecida?
R. - Já te disse que, para ti, sou a Verdade; isto, para ti, quer dizer
discrição: nada mais saberás a respeito.
Em nota acrescida às respostas obtidas do Espírito de Verdade, realizada na casa
do Sr. Baudin, a 09 de abril de 1856, Kardec, nos informa (p. 307):
A proteção desse Espírito, cuja superioridade eu então estava longe de imaginar,
jamais, de fato, me faltou. A sua solicitude e a dos bons Espíritos que agiam
sob suas ordens, se manifestou em todas as circunstâncias de minha vida, quer a
me remover dificuldades materiais, quer a me facilitar a execução dos meus
trabalhos, quer, enfim, a me preservar dos efeitos da malignidade dos meus
antagonistas, que foram sempre reduzidos à impotência. (...).
Isso nos deixa bem claro que Kardec ficou sabendo quem era o Espírito de
Verdade, visto ele confessar que estava longe de supor a sua superioridade, o
que nos leva a concluir que deveria ser alguém de extraordinário valor, pois, se
não fosse um Espírito de elevada categoria, teria dito o seu nome sem maiores
reservas. Por outro lado, foi um Espírito que esteve encarnado entre nós, ou
seja, que era conhecido; caso contrário não se poderia supor a sua elevada
evolução.
Algumas objeções têm-se feito quanto a essa superioridade, quando relacionada ao
Espírito de Verdade, tendo em vista, principalmente, dois pontos: que dar
pancadas não seria coisa que um Espírito superior faria, pois estaria se
rebaixando, caso o fizesse; e também por ter sido tratado de Espírito familiar.
Para o primeiro ponto podemos encontrar uma explicação do próprio Kardec, em O
Livro dos Médiuns, segunda parte - Cap. XI, item 145 (p. 198-199):
Resta-nos destruir um erro assaz espalhado: o de confundirem-se com os Espíritos
batedores todos os Espíritos que se comunicam por meio de pancadas. A tiptologia
constitui um meio de comunicação como qualquer outro, e que não é, mais do que o
da escrita, ou da palavra, indigno dos Espíritos elevados. Todos os Espíritos,
bons ou maus, podem servir-se dele, como dos diversos outros existentes. O que
caracteriza os Espíritos superiores é a elevação das idéias e não o instrumento
de que se utilizem para exprimi-las. Sem dúvida, eles preferem os meios mais
cômodos e, sobretudo, mais rápidos; mas, na falta de lápis e de papel, não
escrupulizarão de valer-se da vulgar mesa falante e a prova disso é que, por
esse meio, se obtém os mais sublimes ditados. (...)
Assim, pois, nem todos os Espíritos que se manifestam por pancadas são
batedores. Este qualificativo deve ser reservado para os que, poderíamos chamar
de batedores de profissão e que, por este meio, se deleitam em pregar partidas,
para divertimentos de umas tantas pessoas, em aborrecer com as suas
importunações... Acrescentemos que, além de agirem quase sempre por conta
própria, também são amiúde instrumentos de que lançam mão os Espíritos
superiores, quando querem produzir efeitos materiais.
Portanto, o que importa não é o meio pelo qual uma mensagem foi dada, mas
tão-somente o seu conteúdo. Agora, quanto ao segundo ponto, ou seja, de ter sido
identificado como um Espírito familiar, temos também a explicação de Kardec de
que, na época, não se fazia nenhuma distinção entre as diversas categorias de
Espíritos simpáticos. Eram todos genericamente chamados de Espíritos familiares,
conforme já mencionamos anteriormente.
Assim, o Espírito de Verdade se apresentou a Kardec e, por motivo de discrição,
não disse absolutamente nada sobre si mesmo. Aliás, “muita discrição” é também
uma atitude que Ele recomendou ao Codificador (Obras Póstumas, 2006, p. 313).
É importante observar que isso aconteceu antes do lançamento de O Livro dos
Espíritos; porém, se Kardec tivesse dito quem realmente Ele era e divulgado tal
coisa, será que, hoje em dia, estaríamos falando sobre o Espiritismo?
Considerando que ainda não estamos nos fins dos tempos, época em que, segundo
crêem alguns, deverá acontecer a parusia, alguém aceitaria, sem maiores
reservas, que seria verdadeira a sua identidade, ou acreditaria na revelação
desse Espírito? Feito isso, teria o Espiritismo sobrevivido? Sua sobrevivência
se deve ao fato de que, no princípio, Kardec sempre procurou ressaltar o aspecto
científico da Doutrina. E isso não foi, porque quis, mas, certamente, por
atender orientação do Espírito de Verdade. De certa forma, foi essa a opinião de
Herculano Pires, que nos disse: “Kardec teve de agir com prudência na divulgação
do Espiritismo, para que a reação violenta e fanática das religiões não
asfixiasse no berço a nova mundividência que nascia das pesquisas mediúnicas”
(PIRES, 1990, p. 13).
Em 9 de agosto de 1863, Kardec, prestes a lançar o livro O Evangelho Segundo o
Espiritismo, fica sabendo o real objetivo do Espiritismo:
Aproxima-se a hora em que te será necessário apresentar o Espiritismo qual ele
é, mostrando a todos onde se encontra a verdadeira doutrina ensinada pelo
Cristo. Aproxima-se a hora em que, à face do céu e da Terra, terás de proclamar
que o Espiritismo é a única tradição verdadeiramente cristã e a única
instituição verdadeiramente divina e humana. (Obras Póstumas, p. 340).
Se o Espiritismo é a verdadeira doutrina ensinada pelo Cristo, não há como não
aceitá-lo como uma religião, que, segundo o acima colocado, foi para o que veio.
Poucos dias depois, a 14 de setembro de 1863, Kardec recebe mais uma mensagem,
da qual ressaltamos o seguinte trecho:
(...) Nossa ação, sobretudo a do Espírito de Verdade, é constante ao teu
derredor e tal que não a podes negar. (...) Com esta obra, o edifício começa a
se livrar dos seus andaimes e já se lhe pode a cúpula a desenhar-se no
horizonte. (Obras Póstumas, p. 341).
Fica demonstrada de forma explícita a ação do Espírito de Verdade sobre Kardec,
que também O reconhecia como seu guia espiritual, fato que podemos confirmar em
seus escritos publicados na Revista Espírita 1861 (p. 356):
Sim, senhores, este fato é não só característico, mas é providencial. Eis, a
este respeito, o que me dizia ainda ontem, antes da sessão, o meu guia
espiritual: o Espírito de Verdade.
Estranham algumas pessoas essa afirmativa de Kardec de que o Espírito de Verdade
era seu guia espiritual. E aqui temos mais um bom motivo para que ele não se
identificasse claramente como sendo Jesus, porquanto iriam ridicularizar tanto o
Espiritismo quanto a ele, que, na melhor das hipóteses, seria taxado de mais um
louco, entre milhares, que se dizem em contato com Jesus. Entretanto, a darmos
crédito ao que Emmanuel afirma sobre o Codificador, essa possibilidade é bem
real. Vejamos:
Um dos mais lúcidos discípulos do Cristo baixa ao planeta, compenetrado de sua
missão consoladora, e, dois meses antes de Napoleão Bonaparte sagrar-se
imperador, obrigando o Papa Pio VII a coroá-lo na igreja de Notre Dame, em
Paris, nascia Allan Kardec, aos 3 de outubro de 1804, com a sagrada missão de
abrir caminho ao Espiritismo, a grande voz do Consolador prometido ao mundo pela
misericórdia de Jesus Cristo. (XAVIER, 1987, p. 194).
Emmanuel não deixa por menos, qualificando Kardec como “um dos mais lúcidos
discípulos do Cristo”, fato que o coloca à altura da nobre missão que recebeu
para trazer ao mundo a nova revelação, presidida pelo próprio Cristo.
Particularmente, acreditamos que esta condição de guia se relaciona ao período
em que Kardec assumiu a missão de codificar a Doutrina Espírita, seguindo as
orientações dos Espíritos Superiores, ou seja, um guia específico, que o
ajudaria a cumprir essa missão. Ficamos curioso para saber quem teria sido
Kardec, numa reencarnação passada, para que o Espírito de Verdade o chamasse de
meu apóstolo (KARDEC, 1990, p. 137).
Se, porventura, Kardec houver mesmo sido o reformador checo Jan Huss, em nova
roupagem (INCONTRI, 2004, p. 22-24) ou talvez, quem sabe, o ressurgimento do
antigo precursor, João Batista (ALEIXO, 2001, p. 40-41), teremos que nele ver,
em qualquer das hipóteses, um missionário cujas reencarnações estariam
relacionadas à missão de anunciar e/ou restabelecer a revelação divina aos
homens.
Em janeiro de 1862, Kardec publica na Revista Espírita um artigo intitulado
“Ensaio sobre a interpretação da doutrina dos anjos decaídos”, sobre o qual
houve várias mensagens dos espíritos. Dentre elas, destacamos uma recebida em
Haia (Holanda), cujo teor é:
Sobre este artigo não tenho senão poucas palavras a dizer, senão que é sublime
de verdade; nada há a acrescentar, nada há a suprimir; bem felizes aqueles que
unirem fé a essas belas palavras, aqueles que aceitarão esta Doutrina escrita
por Kardec. Kardec é o homem eleito por Deus para instrução do homem desde o
presente; são palavras inspiradas pelos Espíritos do bem, Espíritos muito
superiores. Acrescentai-lhe fé; lede, estudai toda esta Doutrina: é um conselho
que vos dou. (Revista Espírita 1862, p. 115).
Aqui temos a informação de que Kardec foi “o homem eleito por Deus para
instrução do homem”, e além disso, a da afirmação “para te assistir pelo
pensamento”, podemos deduzir que o codificador era um médium de intuição, fato
que poderemos também corroborar com suas próprias palavras:
Sem ter nenhuma das qualidades exteriores da mediunidade efetiva, não
contestamos em sermos assistidos em nossos trabalhos pelos Espíritos, porque
temos deles provas muito evidentes para disto duvidar, o que devemos, sem
dúvida, à nossa boa vontade, e o que é dado a cada um de merecer. Além das
idéias que reconhecemos nos serem sugeridas, é notável que os assuntos de estudo
e observação, em uma palavra, tudo o que pode ser útil à realização da obra, nos
chega sempre a propósito, - em outros tempos eu teria dito: como por
encantamento -, de sorte que os materiais e os documentos do trabalho jamais nos
fazem falta. Se temos que tratar de um assunto, estamos certos de que, sem
pedi-lo, os elementos necessários à sua elaboração nos são fornecidos, e isto
por meios que nada têm senão de muito natural, mas que são, sem dúvida,
provocados por colaboradores invisíveis, como tantas coisas que o mundo atribui
ao acaso. (Revista Espírita 1867, p. 274). (grifo nosso)
Um pouco mais à frente, em agosto de 1863, numa mensagem a respeito da
publicação da Imitação do Evangelho, entre outras coisas, foi dito a Kardec:
... Ao te escolherem, os Espíritos conheciam a solidez das tuas convicções e
sabiam que a tua fé, qual muro de aço, resistiria a todos os ataques.
Entretanto, amigo, se a tua coragem ainda não desfaleceu sob a tarefa tão pesada
que aceitaste, fica sabendo bem que foste feliz até ao presente, mas que é
chegada a hora das dificuldades. Sim, caro Mestre, prepara-se a grande batalha;
o fanatismo e a intolerância, exacerbados pelo bom êxito da tua propaganda, vão
atacar-te e aos teus com armas envenenadas. Prepara-te para a luta. Tenho,
porém, fé em ti, como tens fé em nós, e sei que a tua fé é das que transportam
montanhas e fazem caminhar por sobre as águas. Coragem, pois, e que a tua obra
se complete. Conta conosco e conta, sobretudo, com a grande alma do Mestre de
todos, que te protege de modo tão particular. (Obras Póstumas, p. 340-341).
Nesta mensagem confirma-se que Kardec recebia uma proteção “de modo tão
particular” de Jesus, designado como “Mestre de todos”, o que vem corroborar
tudo quanto estamos citando a seu respeito em relação a ele ser uma pessoa
especial, que o qualificava para a missão de trazer ao mundo a terceira
revelação divina.
Além disso, podemos ainda citar do Espírito de Verdade: “As grandes missões só
aos homens de escol são confiadas e Deus mesmo os coloca, sem que eles o
procurem, no meio e na posição em que possam prestar concurso eficaz” (O Livro
dos Médiuns, FEB, 2007, p. 488), o que nos permite, objetivamente, qualificar
Kardec como um homem de escol.
Mas estaríamos, segundo alguns poderão supor, diante de uma outra dificuldade,
qual seja: Jesus poderia se manifestar? Não vemos nenhum problema nisso, desde
que não o mantenhamos no pedestal em que foi colocado, quando o transformaram
num Deus, retirando-lhe a sua condição humana, da qual nunca negou ser. É certo,
pois nós, os espíritas, disso não duvidamos, que Ele é realmente um Espírito
puro, e nessa condição, segundo a classificação dos Espíritos feita por Kardec,
Jesus pode perfeitamente se comunicar, o que pode ser corroborado pelo fato
acontecido na estrada de Damasco, quando Ele aparece a Paulo de Tarso (At 9,5),
questionando-lhe sobre a sua perseguição.
Quanto à natureza de Cristo, Kardec, até o mês de setembro de 1867, não quis
entrar em detalhes, argumentando:
... uma solução prematura, qualquer que ela seja, encontraria muita oposição de
parte a parte, e afastaria do Espiritismo mais partidários do que ela lhe daria;
eis por que a prudência nos faz o dever nos abstermos de toda polêmica sobre
esse assunto, até que estejamos seguros de poder colocar o pé sobre um terreno
sólido. (Revista Espírita 1867, p. 272).
E dentro desta mesma prudência é que vemos o porquê de Kardec não ter dito
claramente também que Jesus era o Espírito de Verdade.
Considerando que, para Deus, “mil anos são como um dia” (2Pe 3,8), então podemos
dizer que “o nosso guia e modelo” esteve encarnado aqui entre nós há apenas dois
dias, situação essa que julgamos muito mais complicada do que Jesus se
manifestar a um ser humano.
V – A quem esse nome poderia qualificar?
Mas, afinal, a quem poderíamos qualificar com o codinome a Verdade? De onde
podemos tirar algo para relacionar com ele? Se o Espiritismo, conforme sustentam
os Espíritos superiores, é o Cristianismo redivivo, só podemos encontrar alguma
coisa no Evangelho, o que, convém lembrar, também foi sugestão de Kardec para
que, assim, procedêssemos.
Fizemos uma pesquisa, na qual procuramos eliminar as passagens comuns entre os
evangelistas e, como resultado, encontramos Jesus empregando, por sessenta
vezes, a expressão “Em verdade vos digo”, quantidade que reportamos bem
significativa.
Podemos enumerar mais duas outras passagens para demonstrar a importância que
Ele dava à palavra verdade. Primeira: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (João 14,6). No desdobramento da parte
inicial desse versículo, teremos os três epítetos a que Jesus se atribui: “Eu
sou o Caminho. Eu sou a Verdade. Eu sou a Vida”. Será que por aqui já não daria
para identificarmos quem poderia se denominar a Verdade? Segunda: “E conhecereis
a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8,32) que, se a colocássemos dessa
forma: “E conhecereis a Jesus, e Jesus vos libertará”, ficaria plenamente
inteligível e, além disso, poderia perfeitamente ser aplicada.
Essas passagens nos levam a concluir também que Jesus é, de fato, o Espírito de
Verdade, pois estariam nelas as razões de ter usado o nome: a Verdade.
E colocamos a seguinte pergunta: Algum Espírito superior teria a insensatez ou
vaidade de usar o codinome a Verdade, sabendo que poderíamos relacioná-lo a
Jesus? Impossível, pois a elevação que tais Espíritos atingiram não lhes
permitiria dizer coisas dúbias que induziriam as pessoas a pensar coisas
equivocadas, principalmente em se tratando de levar alguém a confundi-los com
Jesus.
VI – O que os Espíritos disseram?
Na Revista Espírita 1861 (p. 169), destacamos um trecho da carta do Sr.
Roustaing, de Bordeaux, a Kardec:
Agradeço com alegria e humildade esses divinos mensageiros por terem vindo nos
ensinar que o Cristo está em missão sobre a Terra, para a propagação e o sucesso
do Espiritismo, essa terceira explosão da bondade divina, para cumprir esta
palavra final do Evangelho: ‘Unum ovile et unus pastor’, por terem vindo nos
dizer: ‘Não temais nada! O Cristo (chamado por eles Espírito de Verdade), a
Verdade é o primeiro e o mais santo missionário das idéias espíritas’. Estas
palavras me tocaram vivamente, e me perguntava: ‘Mas onde está, pois, o Cristo
em Missão na Terra?’ A Verdade comanda, segundo a expressão do Espírito de
Marius, bispo das primeiras idades da Igreja, essa falange de Espíritos enviados
por Deus em missão sobre a Terra, para a propagação e o sucesso do Espiritismo.
Assim, Roustaing diz a Kardec que os Espíritos com os quais ele tinha relação
diziam ser o Cristo aquele a quem chamavam de o Espírito de Verdade. Julgamos
importante essa informação por ela ter vindo de fora do círculo ao qual o
Codificador estava vinculado.
Vejamos agora algumas comunicações de Espíritos relacionados à Codificação
Espírita:
Em 20 de janeiro de 1860, de Chateaubriand:
Sois guiados pelo verdadeiro Gênio do Cristianismo, eu vos disse; é porque o
próprio Cristo preside aos trabalhos de toda natureza que estão em vias de
cumprimento para abrir a era de renovação e de aperfeiçoamento que vos predizem
os vossos guias espirituais. (...) (Revista Espírita 1860, p. 62).
Em 19 de setembro de 1861, de Erasto aos Espíritas lionenses:
Não poderíeis crer o quanto nos é doce e agradável presidir ao vosso banquete,
onde o rico e o artesão se acotovelam bebendo fraternalmente; onde o judeu, o
católico e o protestante podem se sentar na mesma comunhão pascal. Não poderíeis
crer o quanto estou orgulhoso em distribuir, a todos e a cada um, os elogios e
os encorajamentos que o Espírito de Verdade, nosso mestre bem-amado, me ordenou
conceder às vossas piedosas coortes (...). (Revista Espírita 1861, p. 305).
Em 14 de outubro de 1861, Kardec lê a mensagem de Erasto aos Espíritas de
Bordeaux:
Sei o quanto vossa fé em Deus é profunda, e quão fervorosos adeptos sois da nova
revelação; é por isso que vos digo, em toda a efusão de minha ternura por vós,
estaria desolado, estaríamos todos desolados, nós que somos, sob a direção do
Espírito de Verdade, os iniciadores do Espiritismo na França, se a concórdia das
quais destes, até este dia, provas brilhantes viessem a desaparecer de vosso
meio. (...) Devo vos fazer ouvir uma voz tanto mais severa, meus bem-amados,
quanto o Espírito de Verdade, mestre de nós todos, espera mais de vós. (Revista
Espírita 1861, p. 348/350).
Em 21 de novembro de 1862, de Antoine (Espírito que foi o pai de Kardec):
Aquele, diz-se, que tiver resistido a essas tristes tentações, pode não esperar
a mudança dos decretos de Deus, os quais são imutáveis, mas contar com a
benevolência sincera e afetuosa do Espírito de Verdade, o Filho de Deus, o qual
saberá, de maneira incomparável, inundar sua alma da felicidade de compreender o
Espírito de justiça perfeita e de bondade infinita, e, por conseqüência,
salvaguardá-lo de toda nova armadilha semelhante. (Revista Espírita 1862, p.
343).
Em 17 de setembro de 1863, de São José:
Compreendei bem que quanto mais conduzirdes os homens a vos imitar, mais o
conjunto de vossas preces terá poder. Tomai os homens pela mão, e conduzi-os no
verdadeiro caminho onde engrossarão a vossa falange. Pregai a boa doutrina, a
doutrina de Jesus, a que o próprio Divino Mestre ensina em suas comunicações,
que não fazem senão repetir e confirmar a doutrina dos Evangelhos. Aqueles que
viverem verão coisas admiráveis, eu vo-lo digo. (Revista Espírita 1863, p.
365-366).
Em Paris, 1863, de Erasto:
Eis, meus filhos, a verdadeira lei do Espiritismo, a verdadeira conquista de um
futuro próximo. Caminhai, pois, em vosso caminho, imperturbavelmente, sem vos
preocupar com as zombarias de uns e amor-próprio ferido de outros. Estamos e
ficaremos convosco, sob a égide do Espírito de Verdade, meu senhor e o vosso.
(Revista Espírita 1868, p. 51).
Ressaltamos as expressões: “nosso Mestre bem-amado”, “Mestre de nós todos”, “o
Filho de Deus”, “Divino Mestre” e “Meu senhor e o vosso”; a quem poderemos dar
esses títulos? Isso mesmo; só existe um ser a quem podemos aplicá-los, que não é
outro senão o próprio Jesus. Isso fica claro se compararmos a expressão “nosso
Mestre bem-amado”, usada por Erasto para designar o Espírito de Verdade, com uma
outra, que consta de sua mensagem recebida em abril de 1862, na qual ele atribui
essa mesma expressão a Cristo (Revista Espirita 1862, p. 111). Poderemos, ainda,
para reforçar, usar da fala de São José que disse taxativamente que “o próprio
Divino Mestre ensina em suas comunicações”, o que, também, nos dá certeza de que
Ele se manifestava, acabando com as dúvidas sobre essa possibilidade.
Merecem atenção especial as que são citadas por Erasto, pois sabendo da sua
efetiva participação nas obras da codificação com várias orientações e
instruções, como se poderão ver em O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro
dos Médiuns e na Revista Espírita, deveríamos levar em conta o que ele nos
informa. Esse Espírito, citado pelo codificador como “sábio” (KARDEC, O Livro
dos Médiuns, FEB, 2007, p. 129), “cujas comunicações todas trazem o cunho
incontestável de profundeza e lógica (KARDEC, O Livro dos Médiuns, FEB, 2007, p.
124), era considerado por Kardec, em relação a outros espíritos, como sendo
“muito mais instruído do ponto de vista teórico” (KARDEC, O Livro dos Médiuns,
FEB, 2007, p. 129). Assim, não há o que se discutir sobre o que ele aqui fala a
respeito do Espírito de Verdade, pois se o que ele diz não serve neste ponto,
também não servirá nos outros.
Em janeiro de 1864, junto à Sociedade Espírita de Paris, lemos nas instruções do
Espírito Hahnemann:
... cada um procurará, pela melhoria de sua conduta, adquirir esse direito que o
Espírito de Verdade, que dirige este globo, conferirá quando for merecido.
(Revista Espírita 1864, p. 16).
A quem cabe a direção do nosso globo? Segundo nos informam os Espíritos, a
Jesus; assim, via de conseqüência, não há como negar que é Ele o Espírito de
Verdade.
Em 5 de janeiro de 1866, de Sonnez:
1866, possas tu, pelos anos a vir, ser essa estrela luminosa que conduziu os
reis magos para a manjedoura de um humilde filho do povo; vinham prestar
homenagem à encarnação que deveria representar, no sentido mais amplo, o
Espírito de Verdade, essa luz benfazeja que transformou a humanidade. Por esta
criança tudo foi compreendido! Foi bem ela que eternizou a graça da
simplicidade, da caridade, da benevolência, do amor e da liberdade. (Revista
Espírita 1867, p. 58).
Nessa comunicação a relação de Jesus como sendo o Espírito de Verdade é direta,
sem meio termo, o que poderá, caso não haja preconceito ou cristalização de
opinião, dissipar todas as possíveis dúvidas quanto a esse fato.
Em 30 de janeiro de 1866, de Inocente (em vida, arcebispo de Táurida):
[...] A Alemanha assiste, como em todos os tempos, à emigração de seus
habitantes às centenas de milhares, o que não faz honra aos seus governos; o
Papa, príncipe temporal, espalha o erro pelo mundo, em vez do Espírito de
Verdade, de que ele se constituiu o emblema artificial. [...] (KARDEC, Obras
Póstumas, FEB, 206, p. 346).
Considerando que o Papa é visto pelos líderes católicos como o “Vigário do Filho
de Deus”, ou seja, de Jesus, a citação acima, em se referindo ao Espírito de
Verdade, leva-nos à conclusão de que se fala da mesma personalidade.
Em 11 de março de 1867, numa mensagem sobre a regeneração da humanidade, cuja
assinatura consta simplesmente Um Espírito:
... Coragem! O que foi predito pelo Cristo deve-se realizar. Nesses tempos de
aspiração à verdade, a luz que ilumina todo homem vindo a este mundo, bilha de
novo sobre vós; perseverai na luta, sede firmes e desconfiai das armadilhas que
vos são estendidas; ficai ligados a esta bandeira onde vós haveis escrito: Fora
da caridade não há salvação, e depois esperai, porque aquele que recebeu a
missão de vos regenerar retorna, e ele disse: Bem-aventurados aqueles que
conhecerem o meu novo nome! (Revista Espírita 1868, p. 96).
Fala-se claramente do retorno de Cristo, com a missão de regenerar os homens,
agora com um novo nome, que, por tudo quanto está sendo colocado nessa pesquisa,
só pode ser o Espírito de Verdade.
No Círculo Cristiano Espiritista de Lérida (Espanha), em meados de 1873,
encontramos duas mensagens.
A primeira foi assinada por S. Paulo:
Ensinai aos que não têm fé as excelentes e doces verdades do Espiritismo que o
bom Senhor vos concedeu por seus enviados, porque a Verdade se aproxima e é
necessário que os enviados lhe preparem o caminho.
Em verdade vos digo: que o Cristo já recebeu a palavra de Deus – já desceu da
região de luz – e está entre vós. (PELLÍCER, 1982, p. 121).
Dizendo que a Verdade se aproxima e depois afirmando que o Cristo está entre
vós, a relação entre um e outro é evidente demais para não considerá-la.
A outra, por S. Luís Gonzaga:
Preparai-vos, não durmais; porque, em vossos dias, o Espírito da Verdade virá,
com seus eleitos, operar a mais importante das renovações que a Humanidade
jamais tem presenciado e admirado”. (PELLÍCER, 1982, p. 132).
Embora aqui a identidade do Espírito de Verdade não tenha sido revelada, não
podemos deixar de relacioná-la a alguém a quem poderá aplicar-se a expressão
“com seus eleitos”. Esse alguém, sem nenhuma impropriedade, não é outro senão o
próprio Jesus.
E, mais recentemente, poderemos colocar do livro Missionários da Luz (p. 99) a
explicação do espírito Alexandre a André Luiz:
- Mediunidade - prosseguiu ele, arrebatando-nos os corações - constitui meio de
comunicação; e o próprio Jesus nos afirma: ‘eu sou a porta... se alguém entrar
por mim será salvo e entrará, sairá e achará pastagens!’ Por que audácia
incompreensível imaginais a realização sublime sem vos afeiçoardes ao Espírito
de Verdade, que é o próprio Senhor?
Aqui se afirma, mais uma vez, agora com uma informação mais atual, próxima a
nós, que o Espírito de Verdade é o Senhor, ou seja, Jesus.
VII – Kardec disse alguma coisa?
A primeira vez em que Kardec fala, em suas obras, sobre esse episódio, foi no
livro Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas (Iniciação Espírita,
p. 231/232), onde diz que o Espírito usou um nome alegórico e que soube depois,
por outros Espíritos, ter sido ele “um ilustre filósofo da antiguidade”.
Entretanto, quando lança O Livro dos Médiuns, que, segundo ele mesmo, substitui
o primeiro por ser “muito mais completo e sobre um outro plano” (Revista
Espírita 1860, p. 256), ao relatar novamente essa mesma comunicação, já fala que
“ele pertencia a uma ordem muito elevada, e que desempenhou um papel muito
importante sobre a Terra” (KARDEC, 2007, p. 110), e, finalmente, no livro Obras
Póstumas (p. 305-306), quando relata todo o acontecimento, ele fala que o
Espírito usou o codinome “A Verdade”, se abstendo de revelar quem realmente Ele
teria sido. (ver item IV).
Por que será que Kardec muda a fala? Para encontrarmos a explicação, devemos ver
algumas observações que ele faz a respeito das comunicações:
a) Recebida em 11 de dezembro de 1855: “Vê-se, por estas perguntas, que eu era
ainda muito noviço acerca das coisas do mundo espiritual”. (p. 302).
b) Recebida em 25 de março de 1856: “Nessa época, ainda não se fazia distinção
nenhuma entre as diversas categorias de Espíritos simpáticos. Dava-se-lhes a
todos a denominação de Espíritos familiares”. (p. 305).
c) Recebida em 09 de abril de 1856, com o detalhe que nessa a pergunta é feita
ao Espírito que se identificou como A Verdade: “A proteção desse Espírito, cuja
superioridade estava longe de imaginar, de fato, jamais me faltou. (...)”. (p.
307).
Considerando que essas três comunicações, constantes do livro Obras Póstumas,
são os documentos originais que Kardec possuía e que, por sua vez, também são
anteriores à época da publicação do livro Instruções Práticas sobre as
Manifestações Espíritas que se deu no ano de 1858, e que em sua substituição
veio O Livro dos Médiuns, disponível ao público em data posterior, qual seja, no
ano de 1861, e que neste último livro já mudava o “um ilustre filósofo da
antiguidade”, (se colocássemos o mais ilustre caberia como uma luva a Jesus),
para qualificá-lo como sendo um Espírito “que pertence a uma categoria muito
elevada e que desempenhou na Terra importante papel” (O Livro dos Médiuns, FEB,
2007, p. 110) (se disséssemos o de uma categoria mais elevada que desempenhou o
papel mais importante sobre a Terra, ficaríamos com a impressão de que, de fato,
estaríamos falando de Jesus). E concluímos que essas últimas expressões devam
prevalecer sobre aquelas. Quer dizer, as comunicações constantes do livro Obras
Póstumas são as que devemos considerar como a realidade dos acontecimentos,
enquanto que, para as outras, acreditamos na hipótese de Kardec ter colocado a
questão de modo diferente, por absoluta discrição, e também para que não
atraísse a si, nem à Doutrina nascente, a ira dos religiosos de seu tempo, como
aconteceu em relação ao Cristianismo, quando esse ainda se encontrava no início.
Em 1868, há uma interessante observação de Kardec, que nos ajudará no
esclarecimento do uso, no livro Instruções Práticas, da expressão “um ilustre
filósofo”, cujo teor poderemos encontrar no item 41, do cap. I, de A Gênese:
O Espiritismo, longe de negar ou destruir o Evangelho, vem, ao contrário,
confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da Natureza, que revela tudo
quanto o Cristo disse e fez; elucida os pontos obscuros dos seus ensinamentos,
de tal sorte que aqueles para quem eram ininteligíveis certas partes do
Evangelho, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem e admitem, sem dificuldade,
com auxílio desta doutrina; vêem melhor o seu alcance e podem distinguir entre a
realidade e a alegoria; o Cristo lhes parece maior: já não é simplesmente um
filósofo, é um Messias divino. (KARDEC, FEB, 2007, p. 42-43).
Fica evidente que a expressão “um ilustre filósofo” foi tomada pelo uso comum,
mas nesta fala Kardec eleva Jesus à categoria de um Messias divino.
Analisemos, em O Livro dos Médiuns, a comunicação IX, inserida no capítulo XXXI,
intitulado Dissertações Espíritas (p. 482/483), da qual destacamos os seguintes
trechos:
Venho, eu, vosso Salvador e vosso juiz; venho, como outrora, aos filhos
transviados de Israel; venho trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me.
O Espiritismo, como outrora a minha palavra, tem que lembrar aos materialistas
que, (...). Revelei a Doutrina Divina; como o ceifeiro, atei em feixes o bem
esparso na Humanidade e disse: Vinde a mim, vós todos que sofreis!
Mas, ingratos, os homens desviaram-se do caminho reto e largo que conduz ao
reino de meu Pai, e se perderam nas ásperas veredas da impiedade. (...).
Crede nas vozes que vos respondem: são as próprias almas dos que evocais. Só
muito raramente me comunico. Meus amigos, os que hão assistido à minha vida e à
minha morte são os intérpretes divinos das vontades de meu Pai.
(...) Estou infinitamente tocado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa
imensa fraqueza, para deixar de estender mão protetora aos infelizes transviados
que, vendo o céu, caem no abismo do erro. (...)
Examinando as expressões usadas aqui nesta mensagem, as quais realçamos em
negrito, não há como não relacioná-las a Jesus. Na realidade, elas dá-nos a
impressão de estarmos ouvindo-O falar. Entretanto, o mais importante dessa
comunicação é a nota que Kardec coloca logo após; vejamo-la:
Esta comunicação, obtida por um dos melhores médiuns da Sociedade Espírita de
Paris, foi assinada com um nome que o respeito não nos permite reproduzir, senão
sob todas as reservas, tão grande seria o insigne favor de sua autenticidade e
porque dele se há muitas vezes abusado demais, em comunicações evidentemente
apócrifas. Esse nome é o de Jesus de Nazaré. De modo algum duvidamos de que ele
possa manifestar-se; mas, se os Espíritos verdadeiramente superiores não o
fazem, senão em circunstâncias excepcionais, a razão nos inibe de acreditar que
o Espírito por excelência puro responda ao chamado do primeiro que apareça. Em
todos os casos, haveria profanação, no se lhe atribuir uma linguagem indigna
dele.
Por estas considerações, é que nos temos abstido sempre de publicar o que traz
esse nome. E julgamos que ninguém será circunspecto em excesso no tocante a
publicações deste gênero, que apenas para o amor-próprio têm autenticidade e
cujo menor inconveniente é fornecer armas aos adversários do Espiritismo.
Como já dissemos, quanto mais elevados são os Espíritos na hierarquia, com tanto
mais desconfiança devem os seus nomes ser acolhidos nos ditados. Fora mister ser
dotado de bem grande dose de orgulho, para poder alguém vangloriar-se de ter o
privilégio das comunicações por eles dadas e considerar-se digno de com eles
confabular, como com os que lhe são iguais.
Na comunicação acima, apenas uma coisa reconhecemos: é a superioridade
incontestável da linguagem e das idéias, deixando que cada um julgue por si
mesmo de quem ela traz o nome, que não a renegaria. (KARDEC, O Livro dos
Médiuns, FEB, p. 483-484).
Primeiramente gostaríamos de chamar a atenção para o que Kardec coloca, logo no
início da nota, para ressaltar as qualidades do médium que recebeu a
comunicação, visando nos alertar para a confiabilidade que depositava nele,
visto o que haveria de falar na seqüência sobre quem assinou tal mensagem.
E quando ele coloca que “temos abstido sempre de publicar o que traz esse nome”
ao se referir a assinatura de Jesus de Nazaré, nos parece que existiram várias
comunicações deste tipo, porquanto o Espírito São José confirma isso quando diz
que “o próprio Divino Mestre ensina em suas comunicações”. A pergunta é: onde
estão essas mensagens, considerando que nas obras de Kardec encontramos apenas
três, sendo que duas delas ele as considerou apócrifas? E, quanto à outra, disse
que “ela leva, na forma e no fundo dos pensamentos, na simplicidade junto à
nobreza do estilo, uma marca de identidade que não se poderia desconhecer”
(Revista Espírita 1868, p. 288). Devemos considerar as assinadas pelo Espírito
de Verdade, como sendo a resposta a essa questão, fato que se confirmará a
seguir.
Também está aqui explicado por que Kardec não quis colocar a assinatura na
mensagem: “não fornecer armas aos adversários do Espiritismo”. Entretanto,
quando do Evangelho Segundo o Espiritismo, ele coloca esta mesma mensagem no
Capítulo VI - O Cristo Consolador, item 5 (p. 135/136), agora assinada pelo
Espírito de Verdade, datando-a como ocorrida em Paris, em 1860, ou seja, bem no
início do Espiritismo. Isso quer dizer que, ao afirmar que essa comunicação tem
a assinatura de Jesus, mas em vez desse nome coloca o de Espírito de Verdade,
devemos pressupor que, para ele, ambas provinham da mesma individualidade. Fato
que fica mais claro quando, em O Livro dos Médiuns, no capítulo XXXI, ao tratar
das Comunicações Apócrifas (p. 502-511), Kardec coloca duas comunicações
assinadas por Jesus (item XXXIII), às quais, em nota, nos explica o seguinte:
Indubitavelmente, nada há de mau nestas duas comunicações; porém, teve o Cristo
alguma vez essa linguagem pretensiosa, enfática e empolada? Faça-se a sua
comparação com a que citamos acima, firmada pelo mesmo nome, e ver-se-á de que
lado está o cunho da autenticidade.
Para nós fica claro que, ao pedir para comparar essas duas mensagens com a
anterior, e ver onde se encontra o “cunho da autenticidade”, é porque admite
como autêntica a primeira, que é exatamente a que citamos um pouco mais acima,
ou seja, aquela “firmada pelo mesmo nome”, na qual a assinatura é Jesus de
Nazaré. O que, em outras palavras, podemos dizer é que Kardec admitia como
verdadeira a comunicação dada por Jesus e que, ao colocá-la em outra ocasião
como assinada pelo Espírito de Verdade, é porque sabia que se tratava do mesmo
Espírito.
Sendo, segundo afirma o codificador, Jesus o “Espírito puro por excelência”,
situação em que, acreditamos, e ninguém duvida dela, daí termos encontrado,
então, mais uma forte razão para tê-lo como o coordenador da Terceira Revelação
Divina, porquanto “Só os puros Espíritos recebem a palavra de Deus com a missão
de transmiti-la” (Revista Espírita 1867, p. 260).
Ainda em O Livro dos Médiuns, quando Kardec fala dos Sistemas, ao se referir ao
Sistema unispírita ou monoespírita (item 48), ele faz uma colocação pela qual
podemos concluir claramente que Cristo e o Espírito de Verdade são a mesma
pessoa; vejamos:
Quando se lhes objeta com os fatos de identidade, que atestam, por meio de
manifestações escritas, visuais, ou outras, a presença de parentes ou conhecidos
dos circunstantes, respondem que é sempre o mesmo Espírito, o diabo, segundo
aqueles, o Cristo, segundo estes, que toma todas as formas. Porém, não nos dizem
por que motivo os outros Espíritos não se podem comunicar, com que fim o
Espírito da Verdade nos viria enganar, apresentando-se sob falsas aparências,
iludir uma pobre mãe, fazendo-lhe crer que tem ao seu lado o filho por quem
derrama lágrimas. A razão se nega a admitir que o Espírito, entre todos santo,
desça a representar semelhante comédia. (...) (KARDEC, O Livro dos Médiuns, FEB,
2007, p. 69).
Não podemos deixar de ressaltar que, aí, Kardec faz uma relação objetiva entre o
Cristo e o Espírito de Verdade de forma a não deixar dúvida quanto à sua
identidade. Na hipótese de que somente o Cristo se manifesta, contra-argumenta o
codificador indagando “com qual objetivo o Espírito de Verdade nos viria
enganar...” e, concluindo, que “a razão se recusa a admitir que o Espírito,
entre todos santo, se rebaixe para executar uma semelhante comédia”, o que nos
leva a deduzir que não há a mínima possibilidade de entendimento, senão, o de
que os dois são a mesma personalidade. Merece destaque esta expressão “entre
todos santo” usada por Kardec, que, a nosso ver, só caberia a Jesus. Na tradução
feita por Renata Barbosa e Simone T. N. Bele, em publicação da Petit Editora (p.
48-49), fica ainda mais nítida esta questão: “o Espírito, entre todos o mais
santo”.
Podemos ainda corroborar isso, em se comparando essas duas falas de Kardec:
... o Espiritismo... Vem cumprir, nos tempos preditos, o que o Cristo anunciou e
preparar a realização das coisas futuras. Ele é, pois, obra do Cristo, que
preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o
reino de Deus na Terra. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. I, item 7, p.
59-60).
... reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo com
respeito ao Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside
ao grande movimento de regeneração, a promessa da sua vinda se acha por essa
forma cumprida, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador. (A Gênese, cap.
I, item 42, FEB, p. 43).
Aqui é oportuno lembrar que O Evangelho Segundo o Espiritismo foi publicado em
abril de 1864, enquanto que o livro A Gênese, o foi em janeiro de 1868. Queremos
chamar a sua atenção, caro leitor, para que observe a comparação que faremos
entre essas duas mensagens:
“... obra do Cristo, que preside...à regeneração que se opera”; e
“... é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração...”
Falando do Espiritismo, Kardec afirma, primeiramente, que o Cristo o preside;
depois disse que o Espírito de Verdade é quem o preside, do que podemos concluir
que os dois são a mesma personalidade, porquanto a coordenação geral do
movimento de regeneração coube somente a um. Então, percebe-se claramente que
ele fala da mesma individualidade, usando nomes diferentes; o que vem
fortalecer, em nós, a convicção de que ele sabia perfeitamente quem era o
Espírito de Verdade, que, para ele, não era outro senão o próprio Jesus.
Um outro fato importante é que, no já citado capítulo VI - O Cristo Consolador,
de O Evangelho Segundo o Espiritismo, com o subtítulo Advento do Espírito de
Verdade, existem, nas Instruções dos Espíritos, cinco mensagens assinadas pelo
Espírito de Verdade. A primeira delas é a que consta de O Livro dos Médiuns,
comunicação IX, do capítulo XXXI, da qual transcrevemos alguns trechos mais
acima, mas com a assinatura de Jesus de Nazaré. Vejamos o que podemos realçar
delas:
5. Venho, como outrora aos transviados filhos de Israel, trazer a verdade e
dissipar as trevas. ....
Mas, ingratos, os homens afastaram-se do caminho reto e largo que conduz ao
reino de meu Pai e enveredaram pelas ásperas sendas da impiedade. Meu Pai não
quer aniquilar a raça humana; ...
Sinto-me por demais tomado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa
fraqueza imensa, para deixar de estender mão socorredora aos infelizes
transviados que, vendo o céu, caem nos abismos do erro...
Espíritas! Amai-vos, este o primeiro ensinamento, instruí-vos, este o segundo...
(O Espírito de Verdade - Paris, 1860) (KARDEC, 1990, p. 135-136).
6. Venho instruir e consolar os pobres deserdados. Venho dizer-lhes que elevem a
sua resignação ao nível de suas provas, que chorem, porquanto a dor foi sagrada
no Jardim das Oliveiras; mas, que esperem, pois que também a eles os anjos
consoladores lhes virão enxugar as lágrimas.
... o trabalho das vossas mãos vos fornece aos corpos o pão terrestre; vossas
almas, porém, não estão esquecidas; e eu, o jardineiro divino, as cultivo ...
Nada fica perdido no reino de nosso Pai ...
Em verdade vos digo: os que carregam seus fardos e assistem os seus irmãos são
bem-amados meus. Instruí-vos na preciosa doutrina que dissipa o erro das
revoltas e vos mostra o sublime objetivo da provação humana... Estou convosco e
meu apóstolo vos instrui. (O Espírito de Verdade - Paris, 1861) (KARDEC, 1990,
p. 136-137).
7. Sou o grande médico das almas e venho trazer-vos o remédio que vos há de
curar. Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos.
Venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, vós que sofreis e vos achais oprimidos, e
sereis aliviados e consolados... (O Espírito de Verdade) (KARDEC, 1990, p.
137-138).
Não há como não relacioná-las a Jesus, tão evidente fica o estilo de linguagem
que lhe é próprio. Inclusive, um detalhe bem particular em uma delas é algo
importante para relacionar o Espírito de Verdade a Jesus, mas que passa
despercebido a muitos. Trata-se da expressão “o jardineiro divino”; embora Jesus
nunca a tenha usado referindo-se a si próprio, ela tem significado relevante,
pois, após a sua ressurreição, Ele aparece a Madalena, que o confunde com o
jardineiro (Jo 20,15); assim, cabe-nos dar um caráter alegórico para essa visão,
no sentido de nos considerarmos plantas do seu jardim. Julgamos fora de
propósito que Kardec tenha se enganado ou que nos tenha deixado ver uma coisa
onde ela não está. Portanto, não vemos outra alternativa senão aceitá-las como
sendo mesmo de Jesus, uma vez que a primeira, conforme dito em O Livro dos
Médiuns, leva essa assinatura. A expressão “meu apóstolo vos instrui”,
certamente é a Kardec que se refere, demonstrando, mais uma vez, sua condição de
Espírito de uma categoria mais elevada.
VIII – O Espírito de Verdade nos deixou alguma pista?
A essa pergunta responderemos que sim, pois, pelo menos, é o que, diante dos
fatos, nos parece; e no que acreditamos. Vejamos uma comunicação assinada pelo
Espírito de Verdade, a propósito de A Imitação do Evangelho (O Evangelho Segundo
o Espiritismo), dada em Bordeaux, em maio de 1864:
Um novo livro acaba de aparecer; é uma luz mais brilhante que vem clarear o
vosso caminho. Há dezoito séculos eu vim, por ordem de meu Pai, trazer a palavra
de Deus aos homens de vontade. Esta palavra foi esquecida pela maioria, e a
incredulidade, o materialismo, vieram abafar o bom grão que eu tinha depositado
sobre vossa Terra. (...)
Há várias moradas na casa de meu Pai, eu lhes disse há dezoito séculos. Estas
palavras o Espiritismo veio fazer compreendê-las. (Revista Espírita 1864, p.
399).
A respeito da assinatura, Kardec faz a seguinte observação:
Sabe-se que tomamos tanto menos a responsabilidade dos nomes quanto pertençam a
seres mais elevados. Nós não garantimos mais essa assinatura do que muitas
outras, nos limitamos a entregar esta comunicação á apreciação de todo Espírita
esclarecido. Diremos, no entanto, que não se pode nela desconhecer a elevação do
pensamento, a nobreza e a simplicidade das expressões, a sobriedade da
linguagem, a ausência de todo supérfluo. Se se a compara àquelas que estão
reportadas em A Imitação do Evangelho (prefácio, e cap. III - O Cristo
Consolador [o correto é o VI]), e que levam a mesma assinatura, embora obtidas
por médiuns diferentes e em diferentes épocas, nota-se entre elas uma analogia
evidente de tom, de estilo e de pensamento que acusa uma fonte única. Por nós,
dizemos que ela pode ser de O Espírito de Verdade, porque é digna dele; ao passo
que delas vimos massas assinadas com este nome venerado, ou o de Jesus, cuja
prolixidade, verborragia, vulgaridade, às vezes mesmo a trivialidade das idéias,
traem a origem apócrifa aos olhos dos menos clarividentes.(...) (Revista
Espírita 1864, p. 399-400).
Kardec, embora muito reservado e não fugindo a essa sua característica, diz que
tal comunicação pode ter vindo do Espírito que a assinou, por ser digna dele e,
além disso, por “ter uma analogia de tom, de estilo e de pensamento”, quando
comparada às outras, “que acusa uma única fonte”. O que não fica difícil de
aceitar se considerarmos que, ao falar das comunicações apócrifas, Kardec coloca
que apareceram várias delas assinadas por Jesus e pelo Espírito de Verdade, do
qual disse ser um nome venerado, o que significa que igualou os dois.
Ressaltamos as expressões: “há dezoito séculos eu vim, por ordem de meu Pai” e
“eu lhes disse há dezoito séculos”, que deixam transparecer que se trata mesmo
de Jesus, embora tenha assinado como Espírito de Verdade.
IX – Conclusão
Tentamos, na medida de nossa capacidade, com esse estudo, abranger tudo quanto
foi possível encontrar nas obras de Kardec sobre o assunto, para que pudéssemos,
de maneira definitiva (ousadia de nossa parte?), dar a resposta à nossa questão
inicial: quem seria o Espírito de Verdade?
Antes de terminar, queremos, ainda, colocar também o pensamento de outros
autores Espíritas, objetivando demonstrar que não estamos sozinhos nessa idéia,
quiçá maluca, para alguns, uma vez que a nossa conclusão pode não ser
convincente para os que pouco ou nenhum valor dão à opinião de autores ainda
desconhecidos do grande público Espírita, como é, especificamente, o nosso caso.
Entretanto, é bom que se diga, há também os que são contrários à idéia.
Hermínio C. Miranda:
Não há como duvidar, portanto, de que, em algum momento, presumivelmente entre
1861 e 1863, Kardec foi informado de que o Espírito Verdade era o próprio
Cristo. (...)
A identificação do Espírito Verdade com Jesus é confirmada em outro livro de boa
fonte mediúnica, publicado após a partida de Allan Kardec para o plano
espiritual. Chama-se este Rayonnements de la vie spirituelle, tendo funcionado
como médium, a sra. W. Krell, de Bordéus, autora também, do prefácio.
Não há, pois, como ignorar a óbvia e indiscutível conclusão de que, sob o nome
de Espírito Verdade, o Cristo dirigiu pessoalmente os trabalhos de formulação e
implementação da Doutrina dos Espíritos, caracterizando-a como o Consolador que
prometera há dezoito séculos. (MIRANDA, 1993, p. 46-49).
Sérgio F. Aleixo:
Vemos que, em termos rigorosamente kardecianos, está dirimida esta dúvida quanto
à individualidade e à identidade do Espírito de Verdade. Ele é único! Ele é
Jesus! A menos que não tenhamos motivos para confiar em Kardec e nos espíritos
da codificação. (ALEIXO, 2001, p. 61).
L. Palhano Jr.:
No advento do Espírito de Verdade, em 1857, é o próprio Jesus de Nazaré quem
preside os acontecimentos da nova Ciência, da nova Filosofia e da nova Religião,
cuja moral é a verdadeira, pois preconiza aquela que está escrita na
consciência. (PALHANO JR., 2001, p. 31).
Porém, mensagens assinadas pelo Espírito de Verdade foram, de fato, assinadas
por Jesus. Kardec, por cuidado, é que omitiu esse detalhe. (PALHANO JR., 1999,
p. 92-93).
De uma forma indireta, podemos também citar Léon Denis (1846-1927), ressaltando
que ele é considerado como um dos principais seguidores de Allan Kardec e
difusor da Doutrina Espírita. Quando afirma que Jesus opera a Nova Revelação sob
direção oculta, nos remete ao Espírito que, em resposta a Kardec, disse se
chamar a Verdade; vejamos:
A passagem de Jesus pela Terra, seus ensinamentos e exemplos, deixaram traços
indeléveis; sua influência se estenderá pelos séculos vindouros. Ainda hoje, ele
preside os destinos do globo em que viveu, amou, sofreu. Governador espiritual
deste planeta, veio, com seu sacrifício, encarreirá-lo para a senda do bem, e é
sob a sua direção oculta e com o seu apoio que se opera essa nova revelação,
que, sob o nome de moderno espiritualismo, vem restabelecer sua doutrina,
restituir aos homens o sentimento dos próprios deveres, o conhecimento de sua
natureza e dos seus destinos. (DENIS, 1987, p. 79).
Podemos destacar as duas principais causas pelas quais algumas pessoas se apóiam
para não aceitar a conclusão a que chegamos. Uma delas é que considerando, mesmo
que inconscientemente, Jesus uma divindade, não o admitem se comunicando com os
homens. Isso, muitas das vezes, trazemos das religiões das quais viemos.
Entretanto, é bom lembrar que Jesus nunca se colocou como tal; ao contrário, se
igualava a nós: “Subo a meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (João
20,17); chegou mesmo a dizer: “quem crê em mim fará as obras que eu faço e fará
maiores do que elas...” (João 14,12). A prova de que Ele se comunica podemos ver
nas narrativas bíblicas com Ele orientando Paulo de Tarso, fora a questão de que
já havia se apresentado a seus discípulos, logo após a sua ressurreição,
passando-lhes suas últimas orientações. E o próprio codificador afirmou: “De
modo algum duvidamos de que ele possa manifestar-se” (KARDEC, O Livro dos
Médiuns, 2007, p. 483). Na segunda causa, a visão que se tem de Jesus é que Ele
é um Espírito puro; mas, nem assim, nessa condição desmistificada, acreditam que
Ele possa se manifestar, contrariando o que Kardec disse sobre essa única classe
dos Espíritos de primeira ordem: “Os homens podem comunicar-se com eles, mas bem
presunçoso seria quem pretendesse tê-los constantemente às suas ordens” (KARDEC,
O Livro dos Espíritos, 2006, p. 125).
Embora sabendo que ainda restarão alguns indivíduos que não irão aceitar a nossa
opinião, mesmo assim externamo-la, afirmando que o Espírito de Verdade é
realmente Jesus. Chegamos a esse entendimento pelos motivos apresentados ao
longo deste estudo – informação dos Espíritos, pela fala de Kardec, pela opinião
de outros autores espíritas, pelo Evangelho e pela comunicação do Espírito de
Verdade –, que foram as bases com as quais fortalecemos nossa convicção. Fora
isso, ainda poderíamos questionar sobre quem, a não ser Jesus, poderia coordenar
este rol de espíritos?: Afonso de Liguori, Arago, Benjamim Franklin, Channing,
Chateaubriand, Delphine de Girardin, Emmanuel, Erasto, Fénelon, Francisco
Xavier, Galileu Galilei, Hahnemann, Henri Heine, Rousseau, Joana d'Arc, João
Evangelista, Lacordaire, Lamennais, Lázaro, Massillon, Pascal, Paulo de Tarso,
Platão, Sanson, Santo Agostinho, São Bento, São Luís, Sócrates, Swedenborg,
Timóteo, Joana de Angelis (um espírito amigo), Cura D'Ars, Vicente de Paulo,
Adolfo (bispo de Argel), Dr. Barry, Cárita, Dufêtre (bispo de Nevers), François
(de Génève), Isabel (de França), Jean Reynaud, João (bispo de Bordéus), Julio
Olivier, Morlot e V. Monod. (MARCON, 2002).
Entretanto, é bom esclarecer que não pretendemos ser o “dono da verdade”, mas
este nosso entendimento se baseia nesta pesquisa criteriosa, que veio
solidificar a nossa verdade, independentemente daquela que cada um tenha. Usando
Kardec diríamos: “Se tenho razão, todos acabarão por pensar como eu; se estou em
erro, acabarei por pensar como os outros” (Obras Póstumas, p. 384).
Esperamos que, com os dados aqui apresentados, possa você também, caro leitor,
tirar a sua própria conclusão, já que aqui nos propomos a não impor nada.
Estamos apenas passando os dados, para que cada um tenha condições de tirar suas
próprias conclusões, mas será fácil perceber que eles estão permeados de nossas
opiniões, pois são resultantes da nossa convicção adquirida no decorrer de nossa
pesquisa.
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Agosto/2003 (revisado em abr/2008).
Referências
bibliográficas:
ALEIXO, S. F. O Espírito das Revelações, Niterói–RJ, Lachâtre, 2001.
INCONTRI, D. Para entender Allan Kardec, Bragança Paulista, SP: Lachâtre, 2004.
KARDEC, A. A Gênese, Araras-SP: IDE, 1993.
_________ A Gênese, Rio de Janeiro: FEB, 2007.
_________ Iniciação Espírita, São Paulo: Edicel, 1986.
_________ O Evangelho Segundo o Espiritismo, Rio de Janeiro: FEB, 1990.
_________ O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: FEB, 2006.
_________ O Livro dos Médiuns, Rio de Janeiro: FEB, 2007.
_________ O Livro dos Médiuns, São Paulo: Petit, 2000.
_________ Obras Póstumas, Rio de Janeiro: FEB, 2006.
_________ Revista Espírita, Araras-SP: IDE, vol. I a XI, diversas edições.
DENIS, L. Cristianismo e Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 1987.
MARCON, M. H. (org) Os expoentes da codificação espírita. Curitiba: FEP, 2002.
MIRANDA, H. C. As Mil Faces da Realidade Espiritual, Sobradinho-DF: Edicel,
1993.
PALHANO Jr., L. Léxico Kardeciano, Rio de Janeiro: CELD, 1999.
_____________ Teologia Espírita, Rio de Janeiro: CELD, 2001.
PELLÍCER, J. A. Roma e o Evangelho. Rio de Janeiro: FEB, 1982.
PIRES, J. H. Curso dinâmico de Espiritismo. Juiz de Fora, MG: A Casa do Caminho,
1990.
XAVIER, F. C. A Caminho da Luz, Rio de Janeiro: FEB, 1987.
___________ Missionários da Luz, Rio de Janeiro: FEB, 1986.
A Bíblia Anotada. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus Editora, 2002.
Bíblia Sagrada. São Paulo: Ave Maria, 1989.
(Esse artigo foi publicado, de forma reduzida, no Jornal Espírita, março 2005,
nº 355, São Paulo: FEESP, p. 11 e na Revista Internacional de Espiritismo - RIE,
ano LXXXIII, nº 01, Matão, fevereiro 2008, p. 38-40).
Ps.: sobre esse tema recomendamos a leitura, pela ordem:
1 – O Consolador veio no Pentecostes?
2 – Jesus não é o Espírito de Verdade
3 – Espírito de Verdade, quem seria ele?
Exposto por Fiorell@!